Dissonante

Abriu enfim a caixa que o assombrava havia tanto, que repousava sobre o armário espiando-o pela fechadura da porta do quarto permanentemente fechado, porque era mais fácil mantê-lo assim do que deixar-se invadir por todo o passado que ali adormecia.

Encontrou nela diversas lembranças de quem um dia poderia ter sido, de pessoas que juraram amizade eterna até que o próprio tempo – que nem fora tanto assim – encarregou-se de levá-las cada uma para um lugar. Claro, seguiram dizendo que a distância não importava quando havia amizade sincera, e por mais sinceros que fossem ao falar dessa amizade, veio a realidade ainda mais verdadeira, e os caminhos que outrora pareciam tão inseparáveis agora já não mais apresentavam interseções possíveis. Ali estavam viagens, risos, desconfortos e reações; amores, desentendimentos, perdão. Infantilidade e rancor, maturidade e cansaço, arroubos emocionais e orgulho e comodismo e “melhor assim”. Tudo isso esmagado e imobilizado por um silêncio de anos, inexplicável, inexpugnável.

Perdeu-se por inteiro, sentado sobre o carpete indiferente, cercado por papéis e promessas, tentado a fechar-se ali dentro, naquela caixa, junto àquilo, junto àquelas impossibilidades, junto ao futuro que nunca aconteceu e das pessoas que sempre estariam juntas, mas que hoje confundem presença com fazer parte de uma rede social. Ou, às vezes, nem mesmo isso.

O sol se punha quando ele finalmente levantou, sem reconhecer a si mesmo no imenso espelho que cobria quase toda a parede. Já não era ele quem estava ali. Aquelas lembranças eram de outro alguém.

Deixou-se espalhado no chão enquanto saía. Pediria, no dia seguinte, que o recolhessem e devolvessem à caixa. Enquanto isso, deixava o quarto sentindo-se exausto como há muito não acontecia. E com o som da porta fechando novamente atrás de si, via-se devolvido à vida que jamais imaginara.

Alento

Como já era madrugada e ele dormia; como chovia tanto e o vento assoviava por entre as frestas das tábuas da pequena casa de madeira, e como o olmo insistente esticava o galho para cutucar o telhado quando a tempestade chegava, ele demorou a ouvir. Mas ouviu uma vez; aguçou os ouvidos, ouviu novamente. Era um pequeno lamento junto à porta. Pensou em ignorar, talvez ainda fosse coisa do sonho que seguira reverberando em sua lucidez; o crepitar da madeira no fogo da lareira tirava-lhe qualquer vontade de levantar, mas não pôde evitar: O sossego fora embora.

Receoso, abriu a porta. Um pouco, apenas o suficiente para tentar enxergar, sob a luz do lampião de azeite, qualquer coisa que houvesse ali que quisesse ser enxergada. Nada viu. Mas escutou, agora aos seus pés, o lamento. Na verdade, um ganido. O lobo era ainda filhote, estava machucado, e tentava empurrar-se junto à porta para proteger-se da chuva que o vento lançava.

Ambos olharam-se por alguns instantes. Ambos desconfiados, sem saber ao certo o que fazer. Ele, o homem, custou um tanto a deixar-se convencer – afinal, não estava acostumado a visitas naquela lonjura onde vivia -, mas abriu bem a porta e voltou para perto da cama. Pegou uns pedaços de charque e colocou-os bem no meio da casa. O pequeno lobo levantou-se, sem apoiar-se em uma das patas traseiras, enquanto lambia os beiços e olhava hora para o homem, hora para a carne.

O homem se afastou. Apenas observava.

O lobo arriscou um passo. Depois o segundo. E o terceiro. Ali, não aguentou: sacudiu-se para livrar-se de tanta água quanto podia, espalhando-a por tudo o que estava em volta.

O homem sorriu.

O lobo mordeu a carne e fez menção de sair, mas a chuva e o machucado o fizeram parar. Contornando de largo, o homem foi até a porta e fechou-a. O animal tentou fingir um rosnado, mas que não convencera nem a ele mesmo. O homem sabia que deveria ficar atento, mas duvidava que o bicho pudesse tornar-se agressivo: desde criança ele possuía certa empatia que alcançava toda a natureza; desde criança, confiavam, ele e a natureza, um no outro. Enquanto ele andava, o lobo mastigava e o olhava. O homem pegou um grande cobertor velho que guardava em um baú e jogou-o perto da lareira, meio embolado. Voltou para a cama. O animal o olhava, e pareciam entender-se. Voltou para a cama. Deitou-se e ficou a ver o animal comer.

Ele não saberia dizer que horas eram quando voltara a adormecer, ou quais eram quando acordou novamente, ainda na madrugada. Mas quando o fez, o que viu é que não havia mais charque, e que o lobo deitara sobre o cobertor velho, em frente ao fogo, e dormia pesado, enrolado como um cãozinho, pescoço à mostra como só fazem ao se sentirem seguros.

O homem sorriu.

Se ao amanhecer o pequeno lobo não tivesse fugido por algum buraco desconhecido, daria uma olhada naquela pata. Mas, naquela noite, ficariam em paz, eles, os dois.

Cefeidas

A última vez em que ouvira seu nome fora há exatos dez minutos. Mal o ouviu, entretanto, tantos eram os ruídos e a estática: agora, apenas o silêncio. A escuridão e o silêncio. A leveza, a escuridão e o silêncio. A leveza, a escuridão, o silêncio e o infinito: não há sequer horizonte para o qual mirar. Não há som a ouvir exceto o da própria respiração. Não há onde segurar, enquanto gira naquela negritude anóxia, impiedosa, cuja tranquilidade exasperadora permeia o traje com sua mão fria e ansiosa, esperando para roubar-lhe o último fôlego. Os pontos de luz que admirava quando criança, deitado na grama do quintal da casa da sua avó, continuavam parecendo tão distantes quanto sempre. Ele sorri – sim, sorri – ao lembrar-se de quando dizia que um dia, ah, um dia, estaria ao lado delas. Chegou mais perto, sem dúvida, mas não há nenhuma ali, agora, estendendo-lhe a mão.

Rodava a que velocidade? Bom, pouco importava. A cada vez em que voltava o rosto para onde estavam os seus, os via mais longe. Sabia que procuravam forma de buscá-lo; duvidava que a encontrariam. Eles agora estavam todos dentro de um outro ponto brilhante e indefinível naquela escuridão.

Uma voz mecânica lhe avisava que o oxigênio estava chegando a 15%. Ele sabia exatamente quanto tempo isso representava, mas procurou não pensar no assunto.

Antes, voltava os pensamentos para o caminho que o levara até ali. Não se arrependia. Apesar de tudo, não se arrependia. Tinha, ao contrário, uma imensa sensação de realização: afinal, quantos sonham com as estrelas e chegam tão perto delas? Quantos sabem como é sentir o próprio corpo sem peso algum, ou enfrentar meses confinado em espaço exíguo até ser invadido por uma imensidão indescritível tão logo seus pés tocam o chão; chão que jamais pé humano algum tocara antes? Nunca se sentira tão pleno.

Foi uma excelente jornada. Não a da missão. A sua. A pessoal. E ele não se arrependia. E sentia que, de algum lugar que parecia agora mais perto, fosse por qualquer motivo, sua avó estava ali com ele, vendo as estrelas.

– Um dia vou estar ao lado delas, vó!

-Eu sei que vai, querido.

E seguia rodopiando, nostálgico e em paz, entregue ao espaço agora tão seu.

Lapso

Durma, menina. Sei que é difícil, mas estamos nós duas aqui, agora, e estaremos aqui sempre. Nós duas.

Sim, eles vão entrar em seu quarto, sem imaginar que isso a ofende, porque está fechado há tanto tempo; suas bonecas estão lá há tanto tempo, e sua cadeira está lá há tanto tempo, e sua cama está lá há tanto tempo que nada lhes parecerá errado. Você chora, eu sei, e chore, porque nada podemos fazer. Talvez você queira derrubar uma ou outra coisa só por pirraça; não a vou repreender: o colo desta velha senhora estará aqui com você para sempre.

Se mexerem nos móveis, se abrirem as cortinas, se tirarem algumas das coisas que lhe são preciosas, nós as pegaremos de volta. Não se preocupe. Afinal, nosso porão, ah… esse duvido que encontrem.

Mas hoje, agora, a casa é deles. E lhe digo, fomos afortunadas por todo o tempo em que estivemos sozinhas aqui, você com seus oito anos e eu com meus… ah, não precisamos falar disso, não é? (E riem)

Deixe que entrem, eles não nos podem ver. Se lhe dá vontade de alguma traquinagem, já disse, vá em frente. Talvez me faça rir um pouco. Talvez eles ouçam esse riso e isso nos faça rir ainda mais. Mas a casa é deles agora. Sejamos gratas por não derrubarem este lugar para dar espaço a algum daqueles arranha-céus com milhares de andares de altura. Esta casa merece reforma, mas merece respeito: estar como sempre esteve, altiva, senhora de si: como nós sempre a mantivemos, afinal, por todos esses pouco mais de cem anos.

Durma, criança. Eles um dia seguirão seu caminho; nós estaremos sempre aqui.

•••

Ciclo

Era alta madrugada quando enfim ela se pôs a procurar as chaves. A velha senhora havia dormido depois de, devidamente estimulada, beber um pouco mais de vinho do que o de hábito e, claro, um comprimido ou outro, triturado, adicionado à bebida sem que soubesse.

Ela foi para o lado de fora do casarão, que em 2016 completava seu 150º aniversário, passando pela janela que já havia deixado previamente destrancada, e seguiu para a entrada do porão – desses que mais pareciam saídos dessas histórias de cidades devastadas por furacões, que tanto lia.

A chave girou com má vontade, mas lhe deu acesso. As portas abriram reclamando, e deixaram sair um odor de idade e aborrecimento, de conformismo e aversão.

Ela ouviu algo que não soube a princípio do que se tratava: talvez um rato correndo sobre um cano, talvez a velha casa acomodando-se em posição mais confortável; mas aguçou o ouvido e deu-lhe atenção. O que ouviu era, apenas, uma voz. Voz de criança. Voz de “oi”.

Precavida, havia levado lanterna, daquelas que se sacode para fazer acender. A voz, a mesma que dera “oi”, pareceu incomodada; ela, entre curiosa e assustada, apenas respondeu: “calma, tudo bem.”

E enfim iluminado pela luz da tal lanterna, que não estava carregada tanto quanto podia, um menino em roupas puídas, de colégio, cobria os olhos e repetia: “oi”. Pelo que via, não poderia ter mais do que oito anos.

– “Oi”, ela respondeu. “Há quanto tempo você está aqui?”

Ele recuou, procurando algo, e achou um jornal, ou o que restava dele. Pegou e entregou a ela.

Entre olhar para ele e para o jornal, dividindo a luz da lanterna, ela o reconheceu em foto de capa onde se lia, em letras garrafais, “DESAPARECEU”. Mas o que chamou sua atenção foi a data de circulação da publicação: 08 de outubro de 1905.

•••

 

Infusão

Há mais tempo do que gostariam de lembrar, estava combinado: ele não perguntaria muito, e ela nada – ou quase nada – responderia.
Agora, a casa de três andares na esquina, que construíra há décadas e que abrigara um tanto de desilusões, enfim encontrava quem com ela flertasse. Era um intenso entra-e-sai de perguntas e de sorrisos e de serás e de abraços e de não sei nãos e de é preciso ousar.
Por detrás do sua xícara de erva-cidreira, ela observava e ria.
Ele, comedido, aproximava-se com o bule e perguntava:

-Será?
-Nah. Não sei. Não me parece.
-Não agradam a senhora?

Ela sorri, como se a palavra “senhora” fosse algo tão distante como o primeiro dia em que se conheceram: precisamente o dia em que aquele café abrira naquela esquina, precisamente o dia em que ela fora a primeira a entrar e pedir uma bebida: chá de erva-cidreira.

Ela aspirou a fumaça e deixou que seu olhar se perdesse por entre os afagos e abraços do jovem casal, que parecia diante de um palácio. “Bah, por que não?”, pensou. Uma leve anuência com a cabeça, que levou ao sorriso do dono do café. O dono do café, aliás, Marien, nunca deixou saber seu próprio sexo: a senhora, ou a jovem, dada a aparência que mantinha, pouco parecia se importar com isso; quando lhe perguntavam o segredo da eterna juventude, repetia: é o chá.

Marien chegou à vitrine do café e, fazendo-se perceber por entre bolos e quitutes, até que Antonov – o refugiado de algum lugar da extinta Cortina de Ferro – o visse e, a seu jeito, esboçasse um sorriso. Com um gesto, apontou a direção do café para o casal. Não, não seria a senhora aquela que assinaria. Havia um procurador, escondido por detrás dos jornais do dia e de bolos carregados de rum, que permanecia imóvel em sua mesa; sim, diversas figuras eternamente presentes, que o transeunte comum jamais perceberia.

O casal, no entanto, a ele seria apresentado, e sua condições seriam plenamente satisfeitas com contrapropostas que os dois nem dariam conta de estarem acordando.

Na segunda-feira seguinte, começaria a mudança. Por detrás da vidraça, com sua xícara de chá de erva-cidreira, a senhora tudo veria. Como via há mais tempo do que alguém quereria lembrar.

Errante

Olhava-se de fora, como acostumara-se a fazer, e percebia-se cada vez mais distante da figura que caminhava aparentemente sem rumo, que falava com quem viesse, que sorria para quem viesse.

Cansara de passar o tempo explicando o que não havia para ser explicado; cansara de tentar parecer aceitável aos próprios olhos, cansara de fingir não se importar se as coisas funcionariam ou não – as coisas precisavam funcionar; não havia, à essa altura, qualquer outra opção.

Enquanto descia a rua em direção à cafeteria, perguntava-se a respeito de quem entraria lá naquele dia, quem passaria por sua mesa e se alguém o cumprimentaria. Às vezes tudo o que difere um dia bom de um mau é apenas isso: um cumprimento.

As palavras que seguem a isso são puro destino.

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