Lapso

Durma, menina. Sei que é difícil, mas estamos nós duas aqui, agora, e estaremos aqui sempre. Nós duas.
Sim, eles vão entrar em seu quarto, sem imaginar que isso a ofende, porque está fechado há tanto tempo; suas bonecas estão lá há tanto tempo, e sua cadeira está lá há tanto tempo, e sua cama está lá há tanto tempo que nada lhes parecerá errado. Você chora, eu sei, e chore, porque não podemos fazer nada. Talvez você queira derrubar uma ou outra coisa só por pirraça; não a vou repreender: o colo desta velha senhora estará aqui com você para sempre.

Se mexerem nos móveis, se abrirem as cortinas, se tirarem algumas das coisas que lhes são preciosas, nós as pegaremos de volta. Não se preocupe, daremos um jeito. Afinal, nosso porão, ah… esse duvido que encontrem.

Mas hoje, agora, a casa é deles. E lhe digo, fomos afortunadas por todo o tempo em que estivemos sozinhas aqui, você com seus oito anos e eu com meus… ah, não precisamos falar disso, não é? (E riem)

Deixe que entrem, eles não nos podem ver. Se lhe dá vontade de alguma traquinagem, não a vou impedir. Talvez me faça rir um pouco. Talvez eles ouçam esse riso e isso nos faça rir ainda mais. Mas a casa é deles agora. E mais uma vez lhe digo: somos afortunadas por não derrubarem este lugar para dar espaço a algum daqueles arranha-céus com milhares de andares de altura. Esta casa merece reforma, mas merece respeito: estar como sempre esteve, altiva, senhora de si: como nós sempre a mantivemos, afinal, por todos esses pouco mais de cem anos.

Durma, criança. Eles um dia seguirão seu caminho; nós estaremos sempre aqui.

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Ciclo

Era alta madrugada quando enfim ela se pôs a procurar as chaves. A velha senhora havia dormido depois de, devidamente estimulada, beber um pouco mais de vinho do que o de hábito e, claro, um comprimido ou outro, triturado, adicionado à bebida sem que soubesse.

Ela foi para o lado de fora do casarão, que em 2016 completava seu 150º aniversário, passando pela janela que já havia deixado previamente destrancada, e seguiu para a entrada do porão – desses que mais pareciam saídos dessas histórias de cidades devastadas por furacões, que tanto lia.

A chave girou com má vontade, mas lhe deu acesso. As portas abriram reclamando, e deixaram sair um odor de idade e aborrecimento, de conformismo e aversão.

Ela ouviu algo que não soube a princípio do que se tratava: talvez um rato correndo sobre um cano, talvez a velha casa acomodando-se em posição mais confortável; mas aguçou o ouvido e deu-lhe atenção. O que ouviu era, apenas, uma voz. Voz de criança. Voz de “oi”.

Precavida, havia levado lanterna, daquelas que se sacode para fazer acender. A voz, a mesma que dera “oi”, pareceu incomodada; ela, entre curiosa e assustada, apenas respondeu: “calma, tudo bem.”

E enfim iluminado pela luz da tal lanterna, que não estava carregada tanto quanto podia, um menino em roupas puídas, de colégio, cobria os olhos e repetia: “oi”. Pelo que via, não poderia ter mais do que oito anos.

– “Oi”, ela respondeu. “Há quanto tempo você está aqui?”

Ele recuou, procurando algo, e achou um jornal, ou o que restava dele. Pegou e entregou a ela.

Entre olhar para ele e para o jornal, dividindo a luz da lanterna, ela o reconheceu em foto de capa onde se lia, em letras garrafais, “DESAPARECEU”. Mas o que chamou sua atenção foi a data de circulação da publicação: 08 de outubro de 1905.

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Infusão

Há mais tempo do que gostariam de lembrar, estava combinado: ele não perguntaria muito, e ela nada – ou quase nada – responderia.
Agora, a casa de três andares na esquina, que construíra há décadas e que abrigara um tanto de desilusões, enfim encontrava quem com ela flertasse. Era um intenso entra-e-sai de perguntas e de sorrisos e de serás e de abraços e de não sei nãos e de é preciso ousar.
Por detrás do sua xícara de erva-cidreira, ela observava e ria.
Ele, comedido, aproximava-se com o bule e perguntava:

-Será?
-Nah. Não sei. Não me parece.
-Não agradam a senhora?

Ela sorri, como se a palavra “senhora” fosse algo tão distante como o primeiro dia em que se conheceram: precisamente o dia em que aquele café abrira naquela esquina, precisamente o dia em que ela fora a primeira a entrar e pedir uma bebida: chá de erva-cidreira.

Ela aspirou a fumaça e deixou que seu olhar se perdesse por entre os afagos e abraços do jovem casal, que parecia diante de um palácio. “Bah, por que não?”, pensou. Uma leve anuência com a cabeça, que levou ao sorriso do dono do café. O dono do café, aliás, Marien, nunca deixou saber seu próprio sexo: a senhora, ou a jovem, dada a aparência que mantinha, pouco parecia se importar com isso; quando lhe perguntavam o segredo da eterna juventude, repetia: é o chá.

Marien chegou à vitrine do café e, fazendo-se perceber por entre bolos e quitutes, até que Antonov – o refugiado de algum lugar da extinta Cortina de Ferro – o visse e, a seu jeito, esboçasse um sorriso. Com um gesto, apontou a direção do café para o casal. Não, não seria a senhora aquela que assinaria. Havia um procurador, escondido por detrás dos jornais do dia e de bolos carregados de rum, que permanecia imóvel em sua mesa; sim, diversas figuras eternamente presentes, que o transeunte comum jamais perceberia.

O casal, no entanto, a ele seria apresentado, e sua condições seriam plenamente satisfeitas com contrapropostas que os dois nem dariam conta de estarem acordando.

Na segunda-feira seguinte, começaria a mudança. Por detrás da vidraça, com sua xícara de chá de erva-cidreira, a senhora tudo veria. Como via há mais tempo do que alguém quereria lembrar.

Errante

Olhava-se de fora, como acostumara-se a fazer, e percebia-se cada vez mais distante da figura que caminhava aparentemente sem rumo, que falava com quem viesse, que sorria para quem viesse.

Cansara de passar o tempo explicando o que não havia para ser explicado; cansara de tentar parecer aceitável aos próprios olhos, cansara de fingir não se importar se as coisas funcionariam ou não – as coisas precisavam funcionar; não havia, à essa altura, qualquer outra opção.

Enquanto descia a rua em direção à cafeteria, perguntava-se a respeito de quem entraria lá naquele dia, quem passaria por sua mesa e se alguém o cumprimentaria. Às vezes tudo o que difere um dia bom de um mau é apenas isso: um cumprimento.

As palavras que seguem a isso são puro destino.

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Abdenmusik

Agora, quando encarava-se no espelho, via tantos, menos a si; lembrava de quando, há não tanto tempo – ou, talvez, há incontáveis vidas – diziam-lhe ser o próximo Shakespeare, o próximo Nobel, o próximo Leão em Cannes.

Hoje, quando olha, mal se vê, envolto nessa névoa de expectativas frustradas: para onde foram os anos promissores, a que levaram as críticas embevecidas, tão maravilhadas, tão carregadas de sincera falsidade, que agora parecem assumir, cada uma, um posto em seu rosto, no formato de uma ruga cansada, de um suspiro, de um suor noturno que o faz acordar no meio da madrugada procurando-se? E isso lhe trazia a necessidade de dormir para nunca mais acordar, de esquecer que em algum momento da vida fora o embrião de qualquer coisa fantástica, de deixar-se perder-se no torpor insalubre de coisa à mão que lhe tirasse a consciência.

Havia, onde morava, apenas a cama, o sanitário, a pia. Nada mais. Como contrição construída às pressas, quase sem motivo, quase que apenas para abrigar por uma noite aquele que ali aparecesse por acaso, e que desvaneceria pela manhã assim como quem estivera ali sob seu abrigo.

Ele estava lá há dias. Não que alguém notasse. Não que alguém se importasse. Abria a torneira esperando alguns minutos até que a primeira água saísse, barrenta e olorosa, e que fosse embora cano adentro; encharcava seu rosto com ela, ou talvez fosse o suor da sua testa o que sujasse a água; mas guardava em silêncio uma esperança:  a de que ela, a água, levasse consigo um tanto dos demônios que lhe atormentavam as ideias, os ouvidos, as vontades; não fora para aquilo que viera. Não fora.

Mas percebeu a TV ligada, anunciando seu relicário de oportunidades e produtos e jóias de qualidade duvidosa a preços impossíveis, onde mãos sem corpo apresentavam anéis, onde vozes matraqueavam vantagens sem apresentar o rosto por detrás delas, bradando ao vento, como ele próprio.

Havia, ainda, umas tantas horas até que a manhã chegasse. Havia, ainda, umas tantas vidas. Talvez, ao acordar, conseguisse que a luz do sol lhe tocasse rosto; era, agora, mais rato do que homem, movimentando-se pelos meios-fios, fugindo dos olhares atentos, mantendo-se invisível para todos aqueles que apertavam o passo, reclamando o direito de não vê-lo.

Houve tempo em que fora alguém. Hoje, não há quem queira ser.

Assim, esquivando-se da sociedade, tornara-se o que dela é tão patente, tão importante: a massa de manobra que vez após vez é argumento eleitoreiro, que a cada eleição lhe dá camiseta e aperto de mão, um antisséptico bucal e um sorriso quando, ao seu lado, em terno impecável com bottom numerado, senta para uma refeição em um restaurante popular.

Já para os anos seguintes o que lhe está reservado é o mesmo suor, as mesmas noites e a mesma certeza de que a insanidade que tão convenientemente lhe fora diagnosticada, e da qual jamais se verá livre novamente, será a garantia da sociedade para mantê-lo onde está, e a outros onde estão, reunindo-o a tantas outras mazelas que o latim, essa lingua morta mas que como zumbi permeia os pensamentos ditos intelectuais, define com maestria para o conforto geral da massa cinza que circula pelas cidades atrás do pão de cada dia: status quo.

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Pela manhã, I.

Ela acordou naquele dia muito entusiasmada. E por acordar, se faça saber, é apenas força de expressão: nem mesmo dormira.
Saudou o sol com um sorriso através da janela ainda fechada, e foi para vê-la assim, perdida em si, que a mãe abriu a porta.
Eufórica que estava, virou-se a perguntar com os olhos a pergunta que a mãe decorara, e que estava pronta a responder:

–  Sim, já pode descer. Acho que você vai ter uma surpresa.

Mas a surpresa, mais ansiosa do que ela, se fez anunciar, com latidos tímidos, assustados e felizes, decidindo se a encontrava a meio caminho da escada ou se fugia num início de brincadeira.

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