Abdenmusik

Agora, quando encarava-se no espelho, via tantos, menos a si; lembrava de quando, há não tanto tempo – ou, talvez, há incontáveis vidas – diziam-lhe ser o próximo Shakespeare, o próximo Nobel, o próximo Leão em Cannes.

Hoje, quando olha, mal se vê, envolto nessa névoa de expectativas frustradas: para onde foram os anos promissores, a que levaram as críticas embevecidas, tão maravilhadas, tão carregadas de sincera falsidade, que agora parecem assumir, cada uma, um posto em seu rosto, no formato de uma ruga cansada, de um suspiro, de um suor noturno que o faz acordar no meio da madrugada procurando-se? E isso lhe trazia a necessidade de dormir para nunca mais acordar, de esquecer que em algum momento da vida fora o embrião de qualquer coisa fantástica, de deixar-se perder-se no torpor insalubre de coisa à mão que lhe tirasse a consciência.

Havia, onde morava, apenas a cama, o sanitário, a pia. Nada mais. Como contrição construída às pressas, quase sem motivo, quase que apenas para abrigar por uma noite aquele que ali aparecesse por acaso, e que desvaneceria pela manhã assim como quem estivera ali sob seu abrigo.

Ele estava lá há dias. Não que alguém notasse. Não que alguém se importasse. Abria a torneira esperando alguns minutos até que a primeira água saísse, barrenta e olorosa, e que fosse embora cano adentro; encharcava seu rosto com ela, ou talvez fosse o suor da sua testa o que sujasse a água; mas guardava em silêncio uma esperança:  a de que ela, a água, levasse consigo um tanto dos demônios que lhe atormentavam as ideias, os ouvidos, as vontades; não fora para aquilo que viera. Não fora.

Mas percebeu a TV ligada, anunciando seu relicário de oportunidades e produtos e jóias de qualidade duvidosa a preços impossíveis, onde mãos sem corpo apresentavam anéis, onde vozes matraqueavam vantagens sem apresentar o rosto por detrás delas, bradando ao vento, como ele próprio.

Havia, ainda, umas tantas horas até que a manhã chegasse. Havia, ainda, umas tantas vidas. Talvez, ao acordar, conseguisse que a luz do sol lhe tocasse rosto; era, agora, mais rato do que homem, movimentando-se pelos meios-fios, fugindo dos olhares atentos, mantendo-se invisível para todos aqueles que apertavam o passo, reclamando o direito de não vê-lo.

Houve tempo em que fora alguém. Hoje, não há quem queira ser.

Assim, esquivando-se da sociedade, tornara-se o que dela é tão patente, tão importante: a massa de manobra que vez após vez é argumento eleitoreiro, que a cada eleição lhe dá camiseta e aperto de mão, um antisséptico bucal e um sorriso quando, ao seu lado, em terno impecável com bottom numerado, senta para uma refeição em um restaurante popular.

Já para os anos seguintes o que lhe está reservado é o mesmo suor, as mesmas noites e a mesma certeza de que a insanidade que tão convenientemente lhe fora diagnosticada, e da qual jamais se verá livre novamente, será a garantia da sociedade para mantê-lo onde está, e a outros onde estão, reunindo-o a tantas outras mazelas que o latim, essa lingua morta mas que como zumbi permeia os pensamentos ditos intelectuais, define com maestria para o conforto geral da massa cinza que circula pelas cidades atrás do pão de cada dia: status quo.

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