Infusão

Há mais tempo do que gostariam de lembrar, estava combinado: ele não perguntaria muito, e ela nada – ou quase nada – responderia.
Agora, a casa de três andares na esquina, que construíra há décadas e que abrigara um tanto de desilusões, enfim encontrava quem com ela flertasse. Era um intenso entra-e-sai de perguntas e de sorrisos e de serás e de abraços e de não sei nãos e de é preciso ousar.
Por detrás do sua xícara de erva-cidreira, ela observava e ria.
Ele, comedido, aproximava-se com o bule e perguntava:

-Será?
-Nah. Não sei. Não me parece.
-Não agradam a senhora?

Ela sorri, como se a palavra “senhora” fosse algo tão distante como o primeiro dia em que se conheceram: precisamente o dia em que aquele café abrira naquela esquina, precisamente o dia em que ela fora a primeira a entrar e pedir uma bebida: chá de erva-cidreira.

Ela aspirou a fumaça e deixou que seu olhar se perdesse por entre os afagos e abraços do jovem casal, que parecia diante de um palácio. “Bah, por que não?”, pensou. Uma leve anuência com a cabeça, que levou ao sorriso do dono do café. O dono do café, aliás, Marien, nunca deixou saber seu próprio sexo: a senhora, ou a jovem, dada a aparência que mantinha, pouco parecia se importar com isso; quando lhe perguntavam o segredo da eterna juventude, repetia: é o chá.

Marien chegou à vitrine do café e, fazendo-se perceber por entre bolos e quitutes, até que Antonov – o refugiado de algum lugar da extinta Cortina de Ferro – o visse e, a seu jeito, esboçasse um sorriso. Com um gesto, apontou a direção do café para o casal. Não, não seria a senhora aquela que assinaria. Havia um procurador, escondido por detrás dos jornais do dia e de bolos carregados de rum, que permanecia imóvel em sua mesa; sim, diversas figuras eternamente presentes, que o transeunte comum jamais perceberia.

O casal, no entanto, a ele seria apresentado, e sua condições seriam plenamente satisfeitas com contrapropostas que os dois nem dariam conta de estarem acordando.

Na segunda-feira seguinte, começaria a mudança. Por detrás da vidraça, com sua xícara de chá de erva-cidreira, a senhora tudo veria. Como via há mais tempo do que alguém quereria lembrar.

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