Cefeidas

A última vez em que ouvira seu nome fora há exatos dez minutos. Mal o ouviu, entretanto, tantos eram os ruídos e a estática: agora, apenas o silêncio. A escuridão e o silêncio. A leveza, a escuridão e o silêncio. A leveza, a escuridão, o silêncio e o infinito: não há sequer horizonte para o qual mirar. Não há som a ouvir exceto o da própria respiração. Não há onde segurar, enquanto gira naquela negritude anóxia, impiedosa, cuja tranquilidade exasperadora permeia o traje com sua mão fria e ansiosa, esperando para roubar-lhe o último fôlego. Os pontos de luz que admirava quando criança, deitado na grama do quintal da casa da sua avó, continuavam parecendo tão distantes quanto sempre. Ele sorri – sim, sorri – ao lembrar-se de quando dizia que um dia, ah, um dia, estaria ao lado delas. Chegou mais perto, sem dúvida, mas não há nenhuma ali, agora, estendendo-lhe a mão.

Rodava a que velocidade? Bom, pouco importava. A cada vez em que voltava o rosto para onde estavam os seus, os via mais longe. Sabia que procuravam forma de buscá-lo; duvidava que a encontrariam. Eles agora estavam todos dentro de um outro ponto brilhante e indefinível naquela escuridão.

Uma voz mecânica lhe avisava que o oxigênio estava chegando a 15%. Ele sabia exatamente quanto tempo isso representava, mas procurou não pensar no assunto.

Antes, voltava os pensamentos para o caminho que o levara até ali. Não se arrependia. Apesar de tudo, não se arrependia. Tinha, ao contrário, uma imensa sensação de realização: afinal, quantos sonham com as estrelas e chegam tão perto delas? Quantos sabem como é sentir o próprio corpo sem peso algum, ou enfrentar meses confinado em espaço exíguo até ser invadido por uma imensidão indescritível tão logo seus pés tocam o chão; chão que jamais pé humano algum tocara antes? Nunca se sentira tão pleno.

Foi uma excelente jornada. Não a da missão. A sua. A pessoal. E ele não se arrependia. E sentia que, de algum lugar que parecia agora mais perto, fosse por qualquer motivo, sua avó estava ali com ele, vendo as estrelas.

– Um dia vou estar ao lado delas, vó!

-Eu sei que vai, querido.

E seguia rodopiando, nostálgico e em paz, entregue ao espaço agora tão seu.

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