Alento

Como já era madrugada e ele dormia; como chovia tanto e o vento assoviava por entre as frestas das tábuas da pequena casa de madeira, e como o olmo insistente esticava o galho para cutucar o telhado quando a tempestade chegava, ele demorou a ouvir. Mas ouviu uma vez; aguçou os ouvidos, ouviu novamente. Era um pequeno lamento junto à porta. Pensou em ignorar, talvez ainda fosse coisa do sonho que seguira reverberando em sua lucidez; o crepitar da madeira no fogo da lareira tirava-lhe qualquer vontade de levantar, mas não pôde evitar: O sossego fora embora.

Receoso, abriu a porta. Um pouco, apenas o suficiente para tentar enxergar, sob a luz do lampião de azeite, qualquer coisa que houvesse ali que quisesse ser enxergada. Nada viu. Mas escutou, agora aos seus pés, o lamento. Na verdade, um ganido. O lobo era ainda filhote, estava machucado, e tentava empurrar-se junto à porta para proteger-se da chuva que o vento lançava.

Ambos olharam-se por alguns instantes. Ambos desconfiados, sem saber ao certo o que fazer. Ele, o homem, custou um tanto a deixar-se convencer – afinal, não estava acostumado a visitas naquela lonjura onde vivia -, mas abriu bem a porta e voltou para perto da cama. Pegou uns pedaços de charque e colocou-os bem no meio da casa. O pequeno lobo levantou-se, sem apoiar-se em uma das patas traseiras, enquanto lambia os beiços e olhava hora para o homem, hora para a carne.

O homem se afastou. Apenas observava.

O lobo arriscou um passo. Depois o segundo. E o terceiro. Ali, não aguentou: sacudiu-se para livrar-se de tanta água quanto podia, espalhando-a por tudo o que estava em volta.

O homem sorriu.

O lobo mordeu a carne e fez menção de sair, mas a chuva e o machucado o fizeram parar. Contornando de largo, o homem foi até a porta e fechou-a. O animal tentou fingir um rosnado, mas que não convencera nem a ele mesmo. O homem sabia que deveria ficar atento, mas duvidava que o bicho pudesse tornar-se agressivo: desde criança ele possuía certa empatia que alcançava toda a natureza; desde criança, confiavam, ele e a natureza, um no outro. Enquanto ele andava, o lobo mastigava e o olhava. O homem pegou um grande cobertor velho que guardava em um baú e jogou-o perto da lareira, meio embolado. Voltou para a cama. O animal o olhava, e pareciam entender-se. Voltou para a cama. Deitou-se e ficou a ver o animal comer.

Ele não saberia dizer que horas eram quando voltara a adormecer, ou quais eram quando acordou novamente, ainda na madrugada. Mas quando o fez, o que viu é que não havia mais charque, e que o lobo deitara sobre o cobertor velho, em frente ao fogo, e dormia pesado, enrolado como um cãozinho, pescoço à mostra como só fazem ao se sentirem seguros.

O homem sorriu.

Se ao amanhecer o pequeno lobo não tivesse fugido por algum buraco desconhecido, daria uma olhada naquela pata. Mas, naquela noite, ficariam em paz, eles, os dois.

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