Remanso

Havia uma infinidade de caixotes, que se amontoavam até tocar o teto, e a única razão que conseguia imaginar para explicar a falta de interesse da família em abri-las era a preguiça e, talvez, alguma certeza de que nada de realmente interessante estaria ali: afinal, o tio era esquisito, gostava de viver isolado, dificilmente falava com alguém. Mas a lembrança que guardava dele não era ruim, pelo contrário: o homem, apesar de viver quase como um ermitão, era culto e agradável, educado e cortês; mas, por algum motivo nunca plenamente compreendido pela família (e nunca com ela dividido), cansara “das pessoas e das coisas” e escolhera comprar aquele enorme e lindo terreno onde, junto ao rio que o cruzava, construir a bela casa onde dividia seus dias com cães, gatos, vinhos e livros. Lembra-se de que o tio recebia sempre com prazer aqueles que lá iam, mas recusava-se a ir, ele, visitar alguém. Lembra-se de ter perguntado, em alguma das muitas noites em que dormiu lá, por que quisera viver ali naquele lugar tão isolado, e de ter ouvido como resposta, em meio a um quase riso,  “porque não consegui comprar uma casa em Marte”.

Lembra-se de fugir incontáveis vezes para aquele lugar, muitas delas sem dar qualquer aviso. O tio nunca perguntava o que havia acontecido; apenas, na manhã seguinte, se queria café, quando o via acordando no sofá ou em um dos quartos.

Talvez por isso ficasse tão à vontade para lhe contar tudo.

Seguia perdido em seus pensamentos até que uma voz cortou o silêncio:

– Vai demorar, amigo? Estamos fechando.

O responsável pelo galpão o trouxe abruptamente da casa do tio de volta àquele paredão de caixas. Era preciso dar um destino para elas.

Mas não agora, pensou. Não hoje.

Deu de ombros e sorriu enquanto saía, caminhando em direção ao funcionário, para renovar o aluguel do lugar e assim dar à cada caixa, e à cada memória, o tempo devido.

Homilia

Não havia drama no que fazia: esse tempo passara.

Houve dias, sim, onde procurou repostas; e em sua busca, foi além do que normalmente iria. Conversou muito, ouviu muito, indagou muito; nas respostas que ouviu, não encontrou o que buscava – ainda que não soubesse exatamente o que era. Recebeu conselhos que não pediu, apresentou seus motivos – mas não havia quem parecesse entender: nessas horas lhe vinha a angústia, a vontade de segurar a cabeça do outro pelas orelhas e de gritar para ver se suas palavras poderiam, à força, encontrar caminho. Mas enquanto opinavam – de dentro de seus ternos e de seus carros e de seus relógios e de seus apartamentos financiados em 30 anos – não estavam de fato dispostos a ajudar: queriam apenas ouvir sua própria voz, seus próprios conselhos, tentando convencer a si mesmos de que as sua escolhas foram as corretas.

Talvez fossem. Para eles.
Para eles.

Por isso, não havia drama no que fazia. Concluíra, apenas, que já não havia motivo para estar aqui.

Deixara a porta destrancada e, com um breve suspiro, partiu.

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