Hialino

Do corte  em seu braço, ela sairia inteira: por ele fugiria de si, enquanto o mundo desmantela-se ao redor.

Há olhares, ela sabe, há curiosidades e enxeridos demais; mas também há mangas compridas e há o sol que, agora, já não é tão inclemente, e que afasta as perguntas desconfortáveis enquanto ela se esconde, sorrindo, atrás de um rótulo qualquer.

E ela ri quando convém. Fica quieta o quanto pode. Dribla perguntas culpando o sono, o dia, a lua, o período. Divide alguma história para manter os outros quietos. Bebe outra dose para manter a boca ocupada e os pensamentos domados.

Mas, em casa, está só.

Ouve a música alta, sente o estômago arder. Passeia por fotos e filmes, banha-se com a luz azulada da TV em programas perdidos madrugada adentro.

Na gaveta, seu estojo a chama de novo; parece saber que, além da vergonha, mais nada a poderá encontrar agora. Resiste, suspira, mas saber que o alívio -ainda que se apresente tão pungente, tão profundo e afiado- encontra-se ao alcance da mão mostra-se uma ideia mais poderosa do que qualquer outro argumento.

Então, de novo, ela escapa pelo corte que mal fechara.

Amanhã, manga comprida em meio a todos, ela segue sozinha.

Porta-retrato

Ela embrulhou o vaso em uma folha de jornal, depois de tê-lo enchido com tantas outras, e colocou com cuidado dentro da caixa. Era a caixa da TV que, por algum motivo, não haviam jogado fora, e que por meses guardou em silêncio tantas das coisas que foram perdendo significado com o passar dos dias: um chapéu comprado em Cancún, a garrafa de vinho que tomaram no terceiro aniversário, alguns badulaques colecionados em viagens sem fim; nada muito digno de continuar à mostra, mas que parecia errado simplesmente descartar.

Ele observava fingindo indiferença, xícara em riste, enquanto a fumaça do café insistia em embaçar as lentes dos óculos.

Dizer o quê? O tempo de falar já passara. Eles já deveriam ter conversado sobre suas manias, sobre seus incômodos, sobre seu futuro e também, por que não, sobre um ou outro assunto passado que, fosse por qual motivo fosse, ainda perturbava. Mas o cansaço dos dias amontoados uns sobre os outros, a quantidade de papéis para despachar, as reuniões até tarde e a letargia diante da TV – a da tal caixa – haviam roubado esse tempo, o da conversa. E, nos últimos anos, estava impossível conciliar as férias. Fazer o quê?

Ainda ajoelhada, ela olhava em volta para ter certeza de que não esquecia nada. Não o encarava, já o conhecia. Já sabia o que veria, afinal ele mudara tanto; guardava pouca semelhança com o rapaz que, extrovertido, falava de sonhos, de música e de literatura, empolgava-se com a possibilidade de um novo projeto e que era capaz de arregimentar para qualquer causa que fosse todos aqueles com quem falava. Ele estava transformado, ela sabia, e aquilo no que se transformou era uma criatura imatura, inconseqüente, falastrona, cheia de nuances indecifráveis. Ela, ao contrário, tinha convicção de que havia amadurecido, e não dispunha mais da paciência que levar aquilo adiante – ou seja, eles dois – exigiria.

Ela não o encarava. Já o conhecia. Fechou as abas da caixa, sobrepondo umas às outras, puxou uma grande tira de fita adesiva e cortou-a com os dentes. Lacrou. Tinha uma caneta em mãos, mas não soube como identificar. Escreveu, então, “frágil”.

Sobre a mesa, Pet Sounds lembrava a brincadeira que faziam quando ainda estavam se conhecendo. Lembrava os apelidos, lembrava as provocações. Ela não guardou o CD, nem o reivindicou. Pediu, no entanto, a boneca espanhola que ficava na prateleira da sala, que ele também queria, mas que, constrangido, entregou. Deu mais uma olhada nas gavetas, dentro do armário e na escrivaninha. Dela, mais nada havia ali.

Bolsa feita, andou até a porta e parou. Olhou para ele. Um tempo infinito passou enquanto olhavam um para os olhos do outro, procurando o que dizer antes que o trinco da porta estalasse uma última vez.

Mas o tempo de conversar já havia passado.

Fosfenos

O suor descendo do rosto ao lençol, trazido pela respiração ofegante e pensamentos descontrolados, eram a imagem que projetava do próprio futuro quando, madrugada adentro, suas pálpebras recusavam-se a encerrar o dia.

Engoliu em seco.

Algo o impedia de chegar lá.

Ele a via, percebia seu sorriso e até o que talvez fosse uma das suas mãos estendidas para recebê-lo. Percebia o vermelho e o azul, algum laranja, mas esse laranja – que sabia, viria antes do dourado e da luz – agora recusava-se a mudar e, subitamente, escurecia.

E quando escurecia, só o que ele enxergava era a si mesmo, de volta, e o teto do quarto. O  que sentia era a ansiedade e o ar que lhe faltava, a língua formigando e as pontas dos dedos adormecendo. Talvez fosse melhor parar. Talvez não o quisessem mais lá. Já não sabia.

Súbito, viu-se plenamente desperto. A noite, muito quente. Tirou a camisa, ligou o ar-condicionado, correu para uma rápida chuveirada. Tentava controlar a respiração por si mesmo, não queria recorrer a qualquer comprimido. Sabia que podia. Pegou o caderno, tirou o elástico, folheou as páginas: rever os desenhos sempre o ajudava e reconstruir o lugar e, uma vez com tudo claro em sua mente, uma vez em que pudesse ver a si mesmo lá, era muito mais fácil chegar.

Sentiu-se algo mais calmo. Voltou a deitar. Respirava fundo, soltava o ar vagarosamente. Concentrou-se no zumbido baixo do ar-condicionado, para afastar todos os outros sons que pudessem perturbar: carros passando em alta velocidade, alguém cantando, uma lixeira virando ruidosamente na esquina.

Era preciso estar apenas ele ali. Inteiro.

Olhos cerrados, alguns minutos ou horas ou segundos depois, e viu o azul, o verde, o lilás. Agora ele também a via, tinha certeza. Sorriu, ou ao menos viu-se sorrindo. Agora ela também o via, tinha certeza. E sorriram, ambos, ou assim os viu. Ela estendeu a mão.

Seu coração batia preguiçoso, inaudível. Ele tocou sua mão, e viu o laranja. Ela sorriu, o laranja tornou-se dourado, finalmente, e trouxe a luz.

Enfim, seguiu com ela, deixando tudo o mais.
E só o que se ouvia em seu quarto, então, era o ar-condicionado e, talvez, o letreiro de neon abaixo da sua janela, piscando insistente, cortando incansável o silêncio da madrugada.