Fosfenos

O suor descendo do rosto ao lençol, trazido pela respiração ofegante e pensamentos descontrolados, eram a imagem que projetava do próprio futuro quando, madrugada adentro, suas pálpebras recusavam-se a encerrar o dia.

Engoliu em seco.

Algo o impedia de chegar lá.

Ele a via, percebia seu sorriso e até o que talvez fosse uma das suas mãos estendidas para recebê-lo. Percebia o vermelho e o azul, algum laranja, mas esse laranja – que sabia, viria antes do dourado e da luz – agora recusava-se a mudar e, subitamente, escurecia.

E quando escurecia, só o que ele enxergava era a si mesmo, de volta, e o teto do quarto. O  que sentia era a ansiedade e o ar que lhe faltava, a língua formigando e as pontas dos dedos adormecendo. Talvez fosse melhor parar. Talvez não o quisessem mais lá. Já não sabia.

Súbito, viu-se plenamente desperto. A noite, muito quente. Tirou a camisa, ligou o ar-condicionado, correu para uma rápida chuveirada. Tentava controlar a respiração por si mesmo, não queria recorrer a qualquer comprimido. Sabia que podia. Pegou o caderno, tirou o elástico, folheou as páginas: rever os desenhos sempre o ajudava e reconstruir o lugar e, uma vez com tudo claro em sua mente, uma vez em que pudesse ver a si mesmo lá, era muito mais fácil chegar.

Sentiu-se algo mais calmo. Voltou a deitar. Respirava fundo, soltava o ar vagarosamente. Concentrou-se no zumbido baixo do ar-condicionado, para afastar todos os outros sons que pudessem perturbar: carros passando em alta velocidade, alguém cantando, uma lixeira virando ruidosamente na esquina.

Era preciso estar apenas ele ali. Inteiro.

Olhos cerrados, alguns minutos ou horas ou segundos depois, e viu o azul, o verde, o lilás. Agora ele também a via, tinha certeza. Sorriu, ou ao menos viu-se sorrindo. Agora ela também o via, tinha certeza. E sorriram, ambos, ou assim os viu. Ela estendeu a mão.

Seu coração batia preguiçoso, inaudível. Ele tocou sua mão, e viu o laranja. Ela sorriu, o laranja tornou-se dourado, finalmente, e trouxe a luz.

Enfim, seguiu com ela, deixando tudo o mais.
E só o que se ouvia em seu quarto, então, era o ar-condicionado e, talvez, o letreiro de neon abaixo da sua janela, piscando insistente, cortando incansável o silêncio da madrugada.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s