Porta-retrato

Ela embrulhou o vaso em uma folha de jornal, depois de tê-lo enchido com tantas outras, e colocou com cuidado dentro da caixa. Era a caixa da TV que, por algum motivo, não haviam jogado fora, e que por meses guardou em silêncio tantas das coisas que foram perdendo significado com o passar dos dias: um chapéu comprado em Cancún, a garrafa de vinho que tomaram no terceiro aniversário, alguns badulaques colecionados em viagens sem fim; nada muito digno de continuar à mostra, mas que parecia errado simplesmente descartar.

Ele observava fingindo indiferença, xícara em riste, enquanto a fumaça do café insistia em embaçar as lentes dos óculos.

Dizer o quê? O tempo de falar já passara. Eles já deveriam ter conversado sobre suas manias, sobre seus incômodos, sobre seu futuro e também, por que não, sobre um ou outro assunto passado que, fosse por qual motivo fosse, ainda perturbava. Mas o cansaço dos dias amontoados uns sobre os outros, a quantidade de papéis para despachar, as reuniões até tarde e a letargia diante da TV – a da tal caixa – haviam roubado esse tempo, o da conversa. E, nos últimos anos, estava impossível conciliar as férias. Fazer o quê?

Ainda ajoelhada, ela olhava em volta para ter certeza de que não esquecia nada. Não o encarava, já o conhecia. Já sabia o que veria, afinal ele mudara tanto; guardava pouca semelhança com o rapaz que, extrovertido, falava de sonhos, de música e de literatura, empolgava-se com a possibilidade de um novo projeto e que era capaz de arregimentar para qualquer causa que fosse todos aqueles com quem falava. Ele estava transformado, ela sabia, e aquilo no que se transformou era uma criatura imatura, inconseqüente, falastrona, cheia de nuances indecifráveis. Ela, ao contrário, tinha convicção de que havia amadurecido, e não dispunha mais da paciência que levar aquilo adiante – ou seja, eles dois – exigiria.

Ela não o encarava. Já o conhecia. Fechou as abas da caixa, sobrepondo umas às outras, puxou uma grande tira de fita adesiva e cortou-a com os dentes. Lacrou. Tinha uma caneta em mãos, mas não soube como identificar. Escreveu, então, “frágil”.

Sobre a mesa, Pet Sounds lembrava a brincadeira que faziam quando ainda estavam se conhecendo. Lembrava os apelidos, lembrava as provocações. Ela não guardou o CD, nem o reivindicou. Pediu, no entanto, a boneca espanhola que ficava na prateleira da sala, que ele também queria, mas que, constrangido, entregou. Deu mais uma olhada nas gavetas, dentro do armário e na escrivaninha. Dela, mais nada havia ali.

Bolsa feita, andou até a porta e parou. Olhou para ele. Um tempo infinito passou enquanto olhavam um para os olhos do outro, procurando o que dizer antes que o trinco da porta estalasse uma última vez.

Mas o tempo de conversar já havia passado.

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