Hialino

Do corte  em seu braço, ela sairia inteira: por ele fugiria de si, enquanto o mundo desmantela-se ao redor.

Há olhares, ela sabe, há curiosidades e enxeridos demais; mas também há mangas compridas e há o sol que, agora, já não é tão inclemente, e que afasta as perguntas desconfortáveis enquanto ela se esconde, sorrindo, atrás de um rótulo qualquer.

E ela ri quando convém. Fica quieta o quanto pode. Dribla perguntas culpando o sono, o dia, a lua, o período. Divide alguma história para manter os outros quietos. Bebe outra dose para manter a boca ocupada e os pensamentos domados.

Mas, em casa, está só.

Ouve a música alta, sente o estômago arder. Passeia por fotos e filmes, banha-se com a luz azulada da TV em programas perdidos madrugada adentro.

Na gaveta, seu estojo a chama de novo; parece saber que, além da vergonha, mais nada a poderá encontrar agora. Resiste, suspira, mas saber que o alívio -ainda que se apresente tão pungente, tão profundo e afiado- encontra-se ao alcance da mão mostra-se uma ideia mais poderosa do que qualquer outro argumento.

Então, de novo, ela escapa pelo corte que mal fechara.

Amanhã, manga comprida em meio a todos, ela segue sozinha.

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