Filigrana

A casa era antiga, tinha um cheiro frio e úmido, e ao longo dos últimos cinquenta anos não tinha visto qualquer sinal de reforma, exceto uma demão de tinta aqui ou ali, ainda assim feita meio no improviso.

As paredes entregaram-se à umidade, e já não faziam qualquer esforço para segurar seus rebocos, evitando que caíssem nos pés ou na cabeça de quem quer que tentasse se aventurar por seus corredores, onde, lado a lado, perfilavam-se imagens de santos tristonhos, escurecidos, há anos dando de comer a ovelhas esfaimadas ou segurando bebês gorduchos e descascados, cujos olhos miravam horizontes distantes e inatingíveis.

Ele passeou durante mais algum tempo por ali, deixando o carro e o motor desligados do lado de fora, sob a bruma e a friagem, deixando que uma fina e tímida camada de gelo cobrisse a lataria. Percorria sobre o chão de madeira acompanhado dos sons do assoalho, perambulando por aquela construção condenada, esquecida, mas que tanto fazia ferver seu sangue e imaginação.

Deixava-se levar para aqueles outros dias dos quais os tijolos foram testemunha, deixava-se levar para outras impressões, outros humores e outras circunstâncias. Deixa-se levar para risos de crianças que subiam e desciam as escadas, sob a repreensão de suas mães, temerosas de que pudessem cair a qualquer momento. Deixava-se lembrar do cheiro do molho de tomate e carne fervendo no fogo e tomando conta de todos os ambientes, interrompido aqui e ali por comentários famintos e jocosos.

– Esse cheiro eu conheço!

Sobre paredes escurecidas, permaneciam, vigilantes, algumas fotos pelas quais ninguém se interessara, nem mesmo ele, ainda que não soubesse por quê. Estavam envergonhadas da própria idade, pelo que parecia, e tentavam esconder-se por detrás do escurecido do vido da moldura, ansiosas por serem deixadas em paz novamente; mas ele recolheu-as, e observou os olhos curiosos daqueles que há muito se foram, cujos nomes aqueles que sabiam já não mais caminhavam ali. Eram oito os quadros, e colocou-os todos debaixo do braço, enquanto continuava a caminhada.

Houve um tempo, muito antes da bruma e do frio, muito antes das heras e trepadeiras, em que ele próprio passeara por ali e desvendara mistérios desconhecidos da humanidade, ouvira sons proibidos, conversara com criaturas inimagináveis e que, agora, mantinham-se caladas, velando o espaço com sua presença intangível, enquanto permitiam a ele caminhar por aqui e por ali.

Houve um longo suspiro e ele apoiou-se na bengala. Tudo aquilo era, agora, dele, e havia concordado em ceder o lugar para alguma coisa qualquer que não sabia bem o que era, mas sob a condição de que lhe fosse permitido fazer essa última visita, sozinho, sem perturbações.

Voltou ao carro, resignado. Sabia que levava, consigo, mais do que qualquer palavra poderia justificar. Nenhum sorriso ou história encontraria graça nos ouvidos de qualquer empreiteiro. Com um sorriso, via todas as lembranças mandarem-lhe um adeus, enquanto seu calhambeque, anacrônico e perfeitamente conservado, dava uma primeira resmungada e enfim levava-o névoa adentro, até o tempo em que já não mais se importava.

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