Messias

Ele já não sabia ao certo há quanto tempo estava naquele lugar.

Era uma clareira cercada por cedros, e a chuva recente fazia subir do solo o cheiro de terra e de folhas, o cheiro de umidade que entranhava na madeira e lhe tomava até os ossos. Tinha as roupas encharcadas, e a barra das suas calças pesava, agora, uma tonelada. Perdera as botas há tempos, quando atravessou o rio, desprezando o conselho daquele velho homem que aparecera do nada e que da mesma forma desaparecera no ar. Seguira adiante porque já se tornara menor o caminho até o fim do que aquele que o levaria de volta ao início e, suportando o frio, os espinhos e os medos que a noite apresentava, avançava sozinho.

Encontrava-se com os raios de sol pela primeira vez em muitos dias: a floresta, densa, recusava-se a deixá-los passar pelas copas das árvores, mais altas do que a paciência permitia calcular. Seguia contrariando seu instinto, agarrando com tanta força o texto que o conduzira até ali que quase fazia sangrar suas mãos.

Mas chegou, enfim.

Escondida por décadas de musgo, mato e de histórias para dormir, a porta, como um alçapão, era real. Demorou um tanto até perceber onde estava: entre duas pedras gêmeas, que talvez servissem de apoio para as mãos quando, em tempos imemoriais, subiam e desciam pela escada aquelas criaturas que qualquer pessoa de bom senso jamais admitiria terem existido.

O frio da manhã tocava suas roupas e enregelava-o. Percebia, não com os olhos mas com a razão, que era observado por aqueles que não têm nome, e que cada um dos seus movimentos era acompanhado com curiosidade e apreensão. Era esta a hora em que tantos outros, como viera a saber, enlouqueceram, perdendo-se entre o que buscavam e aquilo que tanto ouviam desde a infância, e que se não tiveram a vida ceifada pela própria floresta, foram resgatados dela, mas nunca mais de dentro de si mesmos.

Ele avançou alguns passos e limpou tudo o que cobria a porta. Viu a madeira escura, dura como pedra, entalhada com motivos que não compreendia, esculpida com esmero a partir de alguma árvore impossível de reconhecer.

A fechadura, de um dourado velho, tentava ocultar-se entre trepadeiras e fungos , mas ele não deixou-se intimidar: do seu alforje, tomou a chave e girou-a com mais força do que julgava ter, até que um estalo seco, ruidoso, malcriado e de uma antiguidade ímpia fez voar por aqui e por ali todo tipo de criatura alada que se pudesse imaginar: ele, no entanto, apenas ouvia; não lhe era permitido, ao menos ainda, ver qualquer uma delas.

Com força, venceu a relutância da porta e suas dobradiças.

Um vento solene, rendido, cheirando a memórias incontáveis, subiu do túnel escuro como breu. Apenas os cinco primeiros degraus de pedra eram visíveis: tudo o mais permanecia engolido pela escuridão, palpável como piche.

Temeroso, mas determinado, respirou fundo ainda uma vez, e permitiu-se um último olhar em volta antes de descer. Então, fitando os degraus, avançou com passos temerosos, enquanto atrás de si testemunhas silenciosas e invisíveis perguntam-se se um dia ele voltaria, e se seria ele quem, afinal, tanto esperaram que ali chegasse.

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